terça-feira, 11 de novembro de 2008
Metade do morango mofado
E um neologismo não encontrado vagava por entre os primeiros minutos após o recebimento da encomenda. Um exemplar de Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, certamente já lido e relido diversas vezes. Presente de sebo, a cara dele, a cara de ambos. Um marcador branco, e na página, sublinhada em cor preta, a frase. Sublinhado com caneta para jamais apagar, se repassado ou não. E o neologismo, para definir tamanha peculiaridade entre o presente, a frase, ambos, ainda não chegava. Talvez um sinal de grandeza, por sentir algo que não se explica, que é deveras amplo para caber em meia dúzia de letras. "Maldito português, que possui a tal saudade", pensou. Saudade é outra coisa que não tem como mensurar. Saudade é boa, é má, é angústia e malemolência, é ontem e amanhã.
Sebos, livros que lembram cheiro de café, livros que lembram banco de rodoviária. A última vez que a viu foi sentada em um deles, e fazia um calor infernal, mas não importava nem o calor nem a sujeira, tampouco os rostos, tudo era contexto, como se tudo se olhasse mas nada se visse em particularidade, era um cenário. Havia ficado empenhado na repartição, mas havia chegado em tempo de olhá-la, de longe, por uns quatro minutos, aparecer em um minuto e dar um rápido adeus. Despedidas se tornam mais fáceis assim e observar é o bonito da história. Silêncio pra sentir a harmonia, melhor ainda.
"Tem até o mês de janeiro pra aprender a cozinhar algo decente, arrumar a casa e escolher flores bonitas. Também tem até janeiro pra casar e fugir prá Bahia, se achar melhor. Escolha!" Ele preferiu arrumar bem a cama e treinar técnicas para um bom arroz. Mas ela, bom, à ela já não mais importava janeiro, voltar ou ficar. O percurso foi bonito, e era isso que realmente importava, pois não haviam ambiguidades que afastassem as almas especias de Caio F., os morangos poderiam mofar, tudo ficaria alí, guardado e fiel, silêncios, rodoviárias e a instigante falta de neologismo. Apenas um marco para não se perder aos olhos do tempo: O conto "Aqueles Dois", tinta preta e um envelope amarelo.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
O nadismo é um tudismo
http://www.marboh.com.br/nadismo/
Não há de se negar a importância dos prazerosos momentos de ócio, na minha opinião, principalmente se for um ócio criativo, com papéis e canetas na cabeceira, atentos aos impulsos criativos mais belos, fruto de madruagadas tediosas, em casa, no sábado, melhor ainda se estiver chovendo. Enfatizando mais uma vez os indispensáveis papéis e canetas. Com muita seriedade, digo que admiro, admiro mesmo, quem consegue relaxar por pelo menos 45 minutos, em um cubo branco, sem fazer nada; e olha que dormir não vale, hein...
"Será que desliguei a chaleira ao sair de casa? Ai, droga... esqueci de pegar a ração do cachorro e ligar pro Beto. Céus, o aniversário do Beto foi ontem. Hum, e tá rolando a mostra de cinema japonês na casa de cultura. O café da casa de cultura, a torta de maçã... não paguei a conta do telefone. Socorro! Me tira daqui!"
Francamente, meu nadismo seria um tudismo de pensamentos cortantes. Talvez depois de alguns mantras, equilíbrio dos polos e uma xícara de café, eu consiga fazer nada por uns 10 minutos. Troco fácil o nada pelo simples prazer de uma preguiça construtora, nem que esta seja construtora de bolo de cenoura ou até mesmo uma olhada pela janela, ouvindo o barulho do final da tarde.
Isto está longe de ser uma crítica. Minha eterna gratidão a quem souber ensinar ser uma nadista de alguns minutos ao dia.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
A mãe de Barack Obama é a cara do Paul McCartney
Com o perdão do comentário de cultura inútil, não pude me conter. Estava eu, após chegar da aula, preparando algo para comer e asissistindo as matérias do Jornal Nacional sobre as eleições norte-americanas, quando...
- O que é isso, pai? O Paul McCartney de peruca?
- Não. Esta é a mãe do Barack Obama.
Bom, agora fugindo de minha análise, literalmente, nada politizada, eis que da maneira mais utópica continuo a acreditar e esperar que este seja um ano revolucionário em seu caráter mundial, apesar dos pesares econômicos. Pois, infelizmente, de maneira ou outra ainda dependemos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, de nosso tio Sam.
Há céticos que crêem em caos sem volta, há otimistas que agarram-se à oportunidade que o dia quatro de novembro anunciará (ou não), e há até os místicos que acreditam na profecia Maia de que o ano de 2012 será um marco na evolução mundial, com a queda declarada do império americano, juízo final, chegada de ETs... sim, minha gente, até isso. Crenças, verdades e preocupações à parte, esperemos atentos, é claro, o futuro de nossa grande aldeia terrestre.
Ah, e que não nos devoremos até o ano de 2012.
sábado, 1 de novembro de 2008
Desinteressantemente felizes.
"Mas todo o mundo tem", "mas todo mundo faz", "mas todo mundo vai". Céus, cada vez que ouço os pré-aborrescentes, incluindo minha cara irmã, soltando pérolas como essas, eu penso que seria cômico se não fosse trágico e que filhos são algo muito complicado.
Okay, Amélia que era mulher de verdade não existe mais, e ainda bem. É normal que se goste de determinadas coisas nada hedonistas, que se queira ser lindo, colorido e participativo. É normal até o momento em que se abre mão e se passa a não mais enxergar detalhes importantes e indispensáveis que tornam nossa existência o mínimo digna e feliz. Nossos sentindos existem para que sejam racionalizados, caso contrário poderíamos muito bem viver de forma animal, e veja, seríamos bem felizes liberando o Id. Mas não, pro nosso pesar não é possível viver assim, justamente porque temos uma razão, ou seja lá do que você quer chamar isso.
Precisamos de mais papéis por todos os cantos da mesa, sentir o silêncio pulsar, copos no chão da sala, sol matutino, fotos opacas dos anos 70, caixa de lembranças, olhar de roteirista, mãos, ludibriar o óbvio, lápis de cor, janelas, neologismos, incenso, flores, liberdade, grama, direção própria de fotografia, mais nietzsche, menos nietzsche, guardar, jogar fora, o doce, o cítrico, o café, canção de chuva pra dormir, sujar-se, sofás, fazer do tapete da sala o palco para a dança.
Meu pai, budista casual que é, tanto falava sobre a tal impermanência das coisas, que me faz pensar sempre sobre, em diversas situações, de propagandas a concepções de futuro. Nossa concepção de felicidade é falha, é estática e, por mais bela que possa parecer, é enfadonha no momento em que se torna rotina. Há pessoas não tão agradáveis, há trabalhos que são osso, jornal nacional, revista Veja, feridas, desespero. Nossa dita felicidade não se torna possível assim, até mesmo quando o cotidiano exerce suas influências e perdemos o ônibus das sete. Felizes por um tempo, por favor, porque para sempre não quero. Não haveria porquê em rir de si mesmo. O mundo não pára com o intúito nos tornar satisfeitos. Solução? Os sentidos. Não falo em válvula de escape às decepções da existência, mas sim em uma gama de possibilidades de fazer-se válido, de sentir-se vivo.
Eu também sinto, e muito, que não hajam messias dos nossos sonhos. Mas sonhar é a manifestação mais pura do egoísmo, não é mesmo? Ninguém salva, emprego novo não salva, amor da nossa vida não salva, até porque nem bem sabemos do que queremos nos salvar.
Com muita sorte, encontramos pessoas que partilhem de sensitividade, mas tenha muito cuidado! Sensitivos são psicanalistas inatos e muito suscetíveis à paranóia, pois fazem dos detalhes sua vida. Não obstante nos fazem acreditar que beleza existe e, vez ou outra, nos presenteiam com sua presença, com seu olhar, com sua necessária loucura. São raros, são insubstituíveis.
Pensando bem, se você, após ter lido isso tudo, chegou à conclusão de que, definitivamente, não se enquadra a este modelo, achou uma tremenda babaquice, idéia de maluco... tem razão! Destruidores de quebra-cabeças tem lá seus momentos agradáveis, porém vivem em universo paralelo. É melhor que não queiram nada disso. Mas, se gostou, se reconheceu um pedaço do eu, é melhor que abra suas janelas, admire a tempestade e curta sua doce neurose. Tenha somente a consciência de tal vício de visão, que tende ao crescimento e à complexidade. Amenize descascando esmaltes vermelhos, comunicando-se telepaticamente e admirando a vida para além da bolha. Ah, eu já ia esquecendo, aprenda canalizar seu modo de vida com o clichê Amélie Poulain, pois de nada vale a estrada nova se não puder levar o outro ao seu passeio.